AS ÚLTIMAS CASAS DE NIEMEYER
Por Fernando Serapião
“O passado é para ser respeitado e não para se copiar.” - Mário de AndradeSem dúvida, Oscar Niemeyer é o arquiteto brasileiro cuja obra foi mais documentada em livros. São mais de 50 títulos, sem contar os textos em periódicos ⎯mesmo porque ele criou e dirigiu a revista Módulo, que, em quase todos os seus cem números, contém escritos ou projetos de sua autoria⎯. E grande parte dessas publicações foi realizada com a ativa participação do projetista. [1] Com isso, muitos volumes são aparentados no conceito e na edição de imagens, ou seja, nas escolhas editoriais. Nesse sentido, dois livros recentes, tendo como tema as casas de Niemeyer ⎯um contou com a colaboração dele, o outro não⎯, trazem novidades para os interessados nos trabalhos do mestre do modernismo brasileiro.Para alguns arquitetos, principalmente os de inclinação marxista, o tema da casa é tabu. Isso porque trata, literalmente, da escala e de assuntos domésticos, que, segundo eles, pouco modificam o futuro da humanidade ⎯pelo contrário, revelam os desejos mais individualistas e personalistas, de proprietários e projetistas. No entanto, via de regra, é nas residências, e não nos prédios de apartamentos, que se tem mais oportunidade de experimentações arquitetônicas. Mas esse lugar ⎯comum não se aplica a Niemeyer⎯ ao menos não em todas as fases de seu trabalho. O fato é que, se as casas dos 20 primeiros anos de sua carreira representaram avanços significativos na sua trajetória, nos últimos 40 anos o arquiteto pouco utilizou a pequena escala para inovações estilísticas.
Nesse aspecto, é natural que só agora, no momento em que ele apresenta mais de 60 anos de carreira e a casa tornou-se um dos temas de maior interesse editorial, sejam publicados dois livros que abordam a relação de Oscar Niemeyer com as moradas. O primeiro, editado no Brasil, intitulado
As casas onde morei, foi lançado há pouco mais de um ano pela editora Revan. Trata se de uma obra curiosa, na qual o autor, em tom memorialista, relata fatos prosaicos das edificações onde residiu ⎯projetadas por ele ou não⎯. E, em maio último, ganhou destaque nas livrarias dos Estados Unidos um luxuoso volume ⎯o primeiro com o tema doméstico, dentre as dezenas existentes sobre o projetista carioca⎯ que aborda todas as casas desenhadas pelo arquiteto. Com o título de
Oscar Niemeyer houses, o livro, editado pela Rizzoli (de Nova York), tem texto de Alan Hess e fotos de Alan Weintraub.
Segundo Hess escreveu, “o próprio Niemeyer esconde seus projetos residenciais, permitindo que apenas algumas casas ilustrem os inúmeros livros que apresentam seu trabalho, e retira grande parte delas da lista oficial de suas obras”. Pela listagem paralela, realizada por Hess, são 40 as propostas residenciais unifamiliares de Niemeyer. Destas, 12 não foram construídas e três já estão demolidas. Assim, restam de pé 25, das quais 21 foram registradas pela lente de Weintraub. [2]
Sem querer pôr em dúvida a lista do autor norte-americano, de pelo menos quatro ele se esqueceu. Uma é a residência oficial do vice-presidente do Brasil, que ele apenas apresenta na versão não construída, de 1959, esquecendo do Palácio do Jaburu, projetado com a mesma finalidade. As outras são casas de ex-funcionários seus, como a da favela do Vidigal, no Rio de Janeiro, localizada no Caminho da Boa Vista, 119-B; ela foi desenhada para Amaro Paes Filho, motorista particular que acompanhava Niemeyer em suas viagens a Brasília. Com 60 metros quadrados, o projeto foi um presente do arquiteto.
Histórias conhecidas e novidadesAlgumas histórias das casas em que Niemeyer morou já eram famosas: há mais de 30 anos, ele vem adotando um tom autobiográfico em seus relatos. Não é difícil encontrar um texto em que ele escreva a respeito da residência de seu avô, onde nasceu e cresceu, nas Laranjeiras, tradicional bairro carioca. Da mesma forma, as narrativas acerca da casa das Canoas também são diversas. Contudo, isso não tira o interesse ⎯quase que meramente biográfico⎯ da publicação
As casas onde morei. Em ordem cronológica, o pequeno volume descreve sete moradas: a das Laranjeiras, a de avenida no Leblon, a da rua Carvalho de Azevedo, a de Mendes, a das Canoas, a de Maricá e o apartamento da rua Prudente de Moraes. Sobre a das Laranjeiras, por exemplo, Niemeyer escreve: “Era uma casa assobradada, com seis janelas na fachada e uma extensa varanda a segui-la até o fim. Fora construída para minha mãe, que ocupava com seus seis filhos e a nossa prima Milota o andar superior. No térreo ficava o hall de entrada, ligado ao gabinete do meu avô”.
O livro traz alguns fatos pouco conhecidos. Entre eles, Niemeyer relembra sua segunda morada, depois da de Laranjeiras. Ela é chamada de casa de avenida no Leblon, imóvel alugado em uma vila habitacional composta por oito residências iguais, quatro de cada lado. Era composta por sala, cozinha, banheiro, dois quartos e uma edícula, “um quartinho, onde passei a desenhar”. Não há imagens do local, só imagens realizadas de memória. Também morava naquela vila o muralista Paulo Werneck, autor de célebres painéis da arquitetura moderna brasileira e que Niemeyer relata já conhecer do Partido Comunista. Ele escreve ainda que, entre as visitas que recebia ali, estava Milton Roberto. Seria esse o nascedouro dos murais de Werneck para a Pampulha (1942) e para o edifício Seguradores (1949), dos irmãos Roberto? O livro não se preocupa com a definição precisa de datas, mas a moradia seguinte do arquiteto foi desenhada em 1942. Presume-se, então, que ele tenha desenhado o complexo da Pampulha enquanto residia ao lado da casa de Paulo Werneck.
O enigma do SacopanA terceira residência relembrada por Niemeyer é a do Sacopan ⎯a primeira desenhada pelo arquiteto para uso próprio⎯. “Um dia, conversando com o meu amigo João Cavalcanti, resolvemos construir as nossas casas no Sacopan”, ele conta. Nesse ponto, o cruzamento de alguns livros começa a desvendar (ou apresentar) alguns mistérios. Situada na rua Carvalho de Azevedo, a casa de Oscar Niemeyer é quase vizinha da de Cavalcanti (na rua Sacopan), um projeto pouco conhecido do mestre modernista. [3] Aí começa um enigma. Niemeyer relata: “Ele elaborou o projeto da sua casa; fiz o da minha; e João, que era arquiteto e construtor, as construiu”. Será o João o mesmo Cavalcanti da casa projetada por Niemeyer na rua Sacopan? Ou será outro? O fato é que a casa Cavalcanti, datada de 1940, é o primeiro projeto residencial construído de Niemeyer. E apresenta, também pela primeira vez, características peculiares, numa mistura de arquitetura moderna (via Le Corbusier) ⎯nos pilotis, por exemplo⎯ com alguns elementos da arquitetura colonial civil luso-brasileira (via Lucio Costa), como as telhas de barro, os caixilhos de madeira etc. É evidente que a casa Cavalcanti é projeto de Niemeyer ⎯isso não está em dúvida⎯. Mesmo porque, publicada pela primeira vez em 1943, teria havido tempo de sobra para o arquiteto negar a paternidade. Além disso, diversas evidências levam à comprovação da autoria, desde a presença precursora das curvas no volume da garagem até a repetição posterior de alguns de seus elementos, como o muro de pedra, semelhante ao da casa de Francisco Inácio Peixoto, em Cataguases, MG, projetada quatro anos depois.
Hess agrupa a obra residencial de Niemeyer em três fases. [4] Na primeira (de 1936 a 1953), o arquiteto mistura, tal como na moradia inaugural, elementos corbusierianos com raízes da arquitetura luso-brasileira. No entanto, essa combinação por vezes é complexa e não deixa evidente a origem. Dou alguns exemplos: as colunas isoladas das paredes (presentes nas casas Henrique Xavier, M. Passos, Cavalcanti, Oscar Niemeyer, Johnson, Peixoto, Ofair, Moraes Neto, Capanema, Tremaine, Gávea, Miranda e Pignatari) advêm dos pilotis corbusierianos ou das varandas brasileiras? E quanto ao volume único (dascasas Cavalcanti, Lagoa, Johnson, Capanema, Tremaine, Gávea, Pignatari): a simplificação da forma vem do colonial brasileiro ou do movimento moderno? As telhas de barro que cobrem tais volumes é certo que são luso-brasileiras, mas o telhado borboleta (dos projetos M. Passos, Ofair e Kubitschek) é claramente corbusieriano.
Assim, a residência Cavalcanti, apesar de ser a ponta-de-lança executada das casas desenhadas por Niemeyer, não é mostrada nos livros organizados por ele. Nas publicações em que ela aparece, os desenhos são os mesmos: um corte e a planta do pavimento intermediário. Não se conhecem, publicamente, os pisos superior e inferior. Por outro lado, numa das fotos de G. E. Kinder Smith que apresentam a casa da rua Carvalho de Azevedo no livro
The work of Oscar Niemeyer, de Stamo Papadaki (de 1950) ⎯mas, curiosamente, não estão presentes no
Brazil builds⎯ aparece uma placa de obra, onde é possível ler: “Cavalcanti & Machado/Engenharia, arquitetura e construção/ João Cavalcanti de Bastos Mello”, comprovando realmente que foi ele quem construiu a casa. Talvez Niemeyer tenha se enganado em seu novo texto. Ou quem sabe o Cavalcanti da rua Sacopan seja outro. Os mistérios continuam.
O livro de Hess nada esclarece sobre esse tópico ⎯mesmo porque a casa Cavalcanti é uma das poucas em que a publicação norte-americana não traz novas fotos internas⎯. E as imagens recentes revelam que a casa da Sacopan segue intacta, mesmo que um tanto mal conservada: as únicas mudanças visíveis são o calçamento do piso da entrada de veículos (antes com pedras soltas em meio à grama, agora inteiramente pavimentada, revestida com pedras) e uma calha no trecho mais baixo do telhado. A casa da Sacopan é, sem dúvida, o projeto residencial de Niemeyer mais influenciado por Lucio Costa, que nessa época desenhava uma série de residências parecidas (como a casa Roberto Marinho, de 1937, e a Hungria Machado, de 1942) e influenciava muitos autores.
Por outro lado, a casa Cavalcanti revela as qualidades e os defeitos do livro norteamericano: se foi realizado um esforço tremendo para levar o fotógrafo a 22 casas, em 11 cidades diferentes [5], os desenhos deixam a desejar, uma vez que, em sua maior parte, foram utilizados os de outras publicações. Assim, nos projetos menos conhecidos, faltam plantas e cortes. Isso acontece em mais da metade das casas, entre elas a de Baby Pignatari (1953), a morada de Niemeyer em Brasília (1960), a residência carioca de Carmen Baldo (1969) e a de Ana Elisa Niemeyer (2005).
Casas desconhecidasO maior mérito do livro de Hess é desvendar as casas recentes ⎯principalmente as que o autor enquadra na terceira fase, que corresponde ao período pós-Brasília⎯. Com maior ou menor intensidade, as residências das outras duas etapas já haviam sido publicadas em livros e revistas dos anos de 1940 a 1960. Nos dois volumes escritos por Papadaki aparecem quase todas as casas do período inicial. Segundo Hess, a favorita de Niemeyer “é uma pequena casa de férias criada para ele mesmo ⎯a modesta reforma de um galinheiro⎯”. Ele está se referindo à casa de Mendes. Construída para veraneio, ela foi demolida e, por isso, escapou ao registro de Weintraub. Sorte semelhante teve a casa de Baby Pignatary. A única de Niemeyer construída em São Paulo, foi demolida pouco depois de fotografada, já em ruínas. Localizada onde hoje está o parque Burle Marx, foi publicada no segundo volume monográfico de Papadaki,
Oscar Niemeyer: works in progress (1956). Na comparação entre as duas publicações norte-americanas (que possuem 50 anos de diferença!), percebe-se que a construção pouco lembra o projeto publicado. Mas se há poucas novidades sobre as residências antigas (a não ser a revelação de seu atual estado de conservação [6]), elas são muitas quando se trata das casas novas, sobretudo do último período. Em Belo Horizonte, além da casa de JK (cujo croqui está rasurado na área onde foi feito um acréscimo), existe também a de Alberto Dalva Simão (1954), uma variação pouco conhecida da casa das Canoas.
Também pouquíssimo divulgada é a morada de Niemeyer em Brasília (1960). Sete anos depois de Canoas, curiosamente, o arquiteto construiu para si uma casa inspirada nas sedes de fazenda. Aqui, cabe uma mirada no outro volume, o editado no Brasil. Nele há fotos da casa de Maricá, que Niemeyer ganhou de presente do amigo Horácio de Carvalho e recuperou. “Uma bela casa. A varanda larga a completar as salas, convidando-nos a ficar nela com freqüência”, relata. Teria a convivência com a casa de Maricá aguçado a sensibilidade de Niemeyer para a ligação entre o modernismo local e o período colonial? Ao que consta, o arquiteto não teve convívio estreito com construções rurais. Mas, sempre que pode, valoriza esse tipo de arquitetura ⎯em um dos memoriais do projeto do auditório do Ibirapuera, já nos anos 1990, por exemplo, escreve: “uma arquitetura pura, simples, como nossas velhas lembranças coloniais” ⎯. Por outro lado, sempre repete que gostaria de acabar seus dias em Maricá: “Não sou filho do rei, nem vou para Pasárgada, mas um dia, repetindo Bandeira, vou viver em Maricá”, confessa Niemeyer no livro da Revan.
Voltando às casas pouco conhecidas, o volume da Rizzoli traz duas obras de Niemeyer no exterior. Na casa Strick (1964), em Santa Monica, Califórnia, as vigas da cobertura diferem da maior parte da produção do arquiteto. A residência em Cap Ferrat, França, foi desenhada em 1968 para a família Mondadori, proprietária da editora italiana de mesmo nome, cuja sede em Milão foi criada pelo brasileiro. Há ainda outras moradias pouco divulgadas, como as de Flávio Marcílio (1973), Carlos Miranda (1983), Darcy Ribeiro (1983), Sebastião Camargo (1985), Amaral Rezende (1985) e Orestes Quércia (1990).
O presente de PedregulhoDentre estas, a que causa mais perplexidade é a de Quércia (ex-governador de São Paulo e mecenas de Niemeyer), quase uma réplica da casa-grande colonial. À primeira vista, parece que o arquiteto reformou uma sede de fazenda; mas texto e desenhos revelam que ela foi criada do zero. A residência de Pedregulho, interior de São Paulo, cidade natal do político, foi projetada em 1990 e possui quatro águas e varanda frontal. Em certa medida, ganha significado diverso, por estar no meio rural. Por outro lado, a colunata possui matriz clássica. A capela e a rampa de acesso, por sua vez, revelam os cacoetes do autor, naquela época quase nonagenário. A segunda, frontal, é sinuosa, generosa e longa; a primeira, singela, tem cobertura inclinada.
Estaria Niemeyer, assim como Lucio Costa, voltando ao neocolonial? O que pretende nos dizer com o projeto? É certo que ele não fez questão nenhuma de divulgá-lo: a maior parte dos pesquisadores já ouvira falar da casa, e algumas fotografias foram publicadas na grande imprensa, na época da construção, mais por ser de quem é do que pelas qualidades arquitetônicas. Ao que consta, o arquiteto deu o projeto de presente para Quércia ⎯assim como fez com as casas de seus funcionários e de Mondadori⎯.
Assim, vistos juntos, os livros publicados pelas editoras Revan e da Rizzoli nos revelam uma outra face de Niemeyer: a daquele que, depois de ter feito uma revolução na arquitetura, quer terminar seus dias numa confortável casa colonial. “Não sou filho do rei, nem vou para Pasárgada, mas um dia vou viver em Maricá”, confessa o arquiteto, ao se referir a sua casa colonial.
Notas:
[1] A editora Revan publica grande parte dos livros sobre Niemeyer -como A forma na arquitetura (1978), As curvas do tempo (1998) ou Minha arquitetura (2000).
[2] As que escaparam às lentes do fotógrafo são a Herbert Johnson (1942, Fortaleza), o Alvorada (1956) e a casa de campo de Carmen Baldo (1963, Teresópolis).
[3] A primeira publicação da casa Cavalcanti está no Brazil builds, de 1943. Depois, aparece em Arquitetura moderna no Rio de Janeiro, de Alberto Xavier, Alfredo Britto e Ana Luíza Nobre, editora Pini, 1991.
[4] Os três períodos são: de 1936 a 1953; de 1953 a 1961; e de 1961 a 2005.
[5] As 22 casas se distribuem, geograficamente, nas seguintes cidades: oito no Rio de Janeiro; quatro em Brasília; duas em Belo Horizonte; e uma em São Paulo, Cataguases (MG), Pedro do Rio (RJ), Maricá (RJ), Ilhabela (SP), Pedregulho (SP), Santa Monica (EUA) e Cap Ferrat (França).
[6] Na casa da Lagoa, há muitas mudanças. Algumas aberturas, como a da fachada principal, foram fechadas com tijolos de barros, assentados de forma trançada, formando um painel vazado. A singeleza da cobertura inclinada, sem beirais laterais e com as telhas aparecendo, foi modificada. O toldo que amenizava o sol na varanda foi trocado por uma proteção permanente. Já na casa das Canoas, as fotos novas revelam que: o piso externo da plataforma foi trocado; foram substituídos os muros de elemento vazado que ocupavam dois trechos externos junto à laje sinuosa; e o jardim interno sobre a escada foi suprimido.
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 318 Agosto de 2006